A ideia de que o wrestling sempre foi um espetáculo ensaiado, cheio de luzes, personagens e roteiros, não poderia estar mais distante de suas origens. Para entender de verdade de onde veio esse fenômeno global, é preciso voltar a um tempo muito mais bruto, direto e, de certa forma, mais humano: a chamada Era do Wrestling Folclórico.
Muito antes de arenas, contratos e transmissões televisivas, a luta era parte da vida cotidiana. Não existia como indústria, nem como carreira profissional. O wrestling era, acima de tudo, uma ferramenta social. Em comunidades pré-industriais, ele ajudava a resolver conflitos sem o uso de armas, servia como uma forma de medir a força física dos homens — algo essencial para o trabalho pesado — e funcionava como um mecanismo de organização social. Vencer ou perder não era apenas uma questão de orgulho: podia influenciar diretamente sua posição dentro da comunidade, sua reputação e até suas oportunidades de sobrevivência.
Nesse contexto, os lutadores não eram atletas no sentido moderno. Eram fazendeiros, mineiros, pescadores e trabalhadores comuns, moldados por rotinas fisicamente exaustivas. A força não vinha de academias, mas do trabalho diário. A técnica surgia da prática, da tradição e da necessidade.
Embora práticas de luta tenham surgido em várias partes do mundo de forma independente, as raízes do wrestling moderno — especialmente o que mais tarde influenciaria o estilo americano — estão fortemente ligadas às Ilhas Britânicas. Ali, cada região desenvolveu suas próprias regras, estilos e filosofias de combate, muitas vezes refletindo rivalidades locais profundamente enraizadas.
No sudoeste da Inglaterra, por exemplo, surgiram os estilos de jaqueta, como o Cornish e o Devonshire. Neles, os lutadores usavam casacos grossos e o objetivo era derrubar o oponente de costas no chão. A diferença entre os dois estilos parecia pequena, mas gerou rivalidades intensas: na Cornualha, chutes eram proibidos, enquanto em Devon eles eram permitidos — e frequentemente usados com brutalidade.
Mais ao norte, em regiões como Cumberland e Westmorland, desenvolveu-se o estilo conhecido como Backhold. Nele, a luta começava com os oponentes já abraçados, presos um ao outro, e o desafio era simples e direto: derrubar o adversário sem soltar a pegada. Era um teste quase puro de força e equilíbrio, com pouco espaço para truques ou estratégias complexas.
Na Irlanda, o estilo Collar and Elbow se destacou por sua acessibilidade e controle técnico. Os lutadores começavam com uma mão no colarinho e a outra no cotovelo do oponente, o que criava um sistema mais estruturado e facilmente replicável — algo que ajudou esse estilo a se espalhar quando imigrantes irlandeses o levaram para os Estados Unidos.
Mas talvez o estilo mais importante para o futuro do wrestling tenha surgido no noroeste da Inglaterra, em Lancashire. Diferente dos outros, ele era muito mais livre. Conhecido como “catch-as-catch-can”, permitia agarrar qualquer parte do corpo e continuar a luta no chão. Era um estilo voltado para a sobrevivência, onde o objetivo era submeter o adversário da forma que fosse possível. Esse modelo acabaria se tornando a base do wrestling profissional moderno.
Lancashire também revelou um lado mais sombrio do wrestling folclórico. Uma prática conhecida como “purring” — ou “up and down fighting” — levava a violência a outro nível. Os lutadores usavam tamancos de madeira com pontas de ferro e podiam chutar as pernas do oponente com força total. Embora socos com as mãos fechadas ainda fossem proibidos, os danos causados por esses chutes eram severos. A prática se tornou tão perigosa que acabou sendo proibida no início do século XIX, após causar mortes e ferimentos graves.
À medida que o wrestling crescia em popularidade, ele começou a sair dos campos abertos e feiras locais e migrar para ambientes maiores, incluindo eventos em cidades como Londres. No século XVII, torneios já atraíam não apenas grandes multidões, mas também membros da nobreza, incluindo figuras como o rei Carlos II. Os prêmios podiam ser extremamente altos para a época, chegando a valores que hoje seriam equivalentes a grandes bolsas esportivas.
No entanto, junto com a popularidade vieram os problemas. O ambiente passou a ser fortemente influenciado por apostas, o que abriu espaço para manipulações. Surgiu então o chamado “barneying”, quando lutadores combinavam previamente o resultado da luta para dividir os ganhos. Além disso, o clima competitivo e o dinheiro envolvido frequentemente levavam a tumultos entre os espectadores, transformando eventos em verdadeiros barris de pólvora sociais.
Apesar disso, o período entre 1810 e 1830 é frequentemente visto como uma espécie de idade de ouro do wrestling folclórico. Foi quando surgiram figuras lendárias, cuja reputação atravessava regiões inteiras. Nessa época, ainda não existiam cinturões ou títulos oficiais: o que definia um campeão era o reconhecimento público.
Entre esses nomes estavam gigantes como Richard Parkin, conhecido como “The Great Parkin”, símbolo do orgulho da Cornualha, e Abraham Cann, campeão de Devon famoso por sua técnica e pelo uso agressivo de chutes. Cann protagonizou uma das rivalidades mais marcantes da história com James Polkinghorne, um respeitado lutador da Cornualha e dono de pub. O confronto entre eles, em 1826, atraiu algo entre 17 e 20 mil pessoas — um número impressionante para a época — e terminou de forma polêmica, evidenciando o choque entre diferentes sistemas de regras.
Outro episódio famoso foi a chamada Luta de Saltash, quando o lutador John Jordan, conhecido como “Giant Jordan”, afirmou ter derrotado vários dos melhores competidores da Cornualha. Isso levou à organização de um desafio formal, no qual representantes da Cornualha derrotaram os de Devon em questão de minutos, restaurando o orgulho regional.
Essas histórias mostram como o wrestling estava profundamente ligado à identidade das comunidades. Não era apenas esporte ou entretenimento: era uma forma de representar sua terra, seu povo e sua posição no mundo.
Com a chegada da Revolução Industrial, tudo começou a mudar. As migrações levaram esses estilos para outros países, especialmente os Estados Unidos. O estilo de Lancashire, por exemplo, foi refinado para reduzir sua letalidade e evoluiu para o catch wrestling profissional. Ao mesmo tempo, os promotores começaram a perceber que, para tornar o esporte viável comercialmente, era necessário controlar melhor as lutas.
Foi nesse contexto que surgiu a transição para o wrestling como espetáculo. As lutas começaram a ser organizadas com mais cuidado, regras mais claras e, eventualmente, resultados pré-determinados. Curiosamente, aquilo que hoje muitos chamam de “marmelada” foi o que salvou o wrestling. As lutas reais podiam durar horas, causar danos permanentes aos lutadores e, em muitos casos, se tornavam entediantes para o público. Sem adaptação, o esporte provavelmente teria desaparecido no final do século XIX.
O wrestling moderno, com toda sua teatralidade, é resultado direto dessa transformação. Mas suas raízes continuam fincadas naquele passado distante, onde homens comuns lutavam em campos abertos não por fama ou contratos milionários, mas por respeito, sobrevivência e lugar na comunidade.


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